SEMEANDO SEMPRE

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sábado, 28 de maio de 2016

A Tradição Hermética


De todas as tradições espirituais conhecidas no Ocidente, a de Hermes, o Três Vezes Grande, é a mais antiga. Exposta a alterações no decurso do tempo, a Tradição Hermética está arraigada no passado egípcio mais remoto. Lá sai a máscara de Hermes para revelar Thoth, o da cabeça de Íbis, o primeiro doador do conhecimento à humanidade. Este conhecimento ainda perdura entre nós, conservado ao longo dos séculos por uma comunidade invisível de adeptos pouco conhecidos ou desconhecidos.  


Um doador de conhecimento difere muito de um deus salvador sofredor como Osíris ou de uma deusa  mãe amante como Ísis. Cada aspecto da divindade apela a um tipo psico-espiritual diferente e cada um deles pode conduzir por diversas sendas a um único objetivo. O caminho que leva ao conhecimento possui um propósito duplo. Primeiro, ensinar técnicas e práticas para superar as limitações humanas, como o trauma da morte e, segundo, estudar a ordem cósmica e trabalhar dentro dela. Quando esses dois objetivos coincidem, temos a expressão do Hermetismo.
   


O mundo clássico temporalmente sentiu a atração pelo Egito e seus mistérios, ainda que fosse um Egito de glórias passadas. Pitágoras se encontrou entre os que visitaram a "Terra de Chem" para adquirir suas iniciações e incorporá-las à sua própria filosofia. No aspecto religioso, os cultos egípcios se introduziram   no mundo clássico com as conquistas de Alexandre, O Grande. O mesmo Alexandre se representava portando os chifres de carneiro de Amon, deus de Tebas. A Roma foi Ísis, cujo culto chegou a ser  um dos mais esplêndidos sob os Imperadores. Em Alexandria e outros centros de língua grega, surgiu  Serapis como um amistoso rival de Zeus, porém foi Thoth quem conseguiu mais com a mente filosófica.
   

No mito egípcio, Thoth é descrito  várias vezes como o espírito e inteligência do Criador; deus do saber e da cura, juiz das disputas celestiais e secretário dos deuses; o que pesa as almas dos mortos. Foi ele quem proferiu as palavras que teriam dividido os membros de Osiris. Thoth inventou números e mediu o tempo. Em sua abstração máxima, Thoth foi um deus de transições, do caos ao cosmos, das disputas ao entendimento, da morte ao renascer, das causas aos efeitos. Mais concretamente, era considerado  um deus dos encantamentos   e da astrologia, da medicina popular e mestre-instrutor em plantas e minerais.
    
Tudo isto vinha com Thoth ainda que tenha tomado uma aparência grega. O deus grego Hermes também havia sido um deus de transições: um assinalador  de fronteiras, um guia de almas ao Hades, mensageiro entre o Olimpo e a Terra, patrão de mercadores e ladrões. Quando se deu esse nome a Thoth, com o epíteto Trimesgisto ("Três Vezes Grande"), este assumiu a aparência de filósofo-rei, recriando para  a época helênica a memória daqueles homens divinos ou deuses encarnados  que haviam educado à raça humana. Há ressonâncias deles em toda as terras, como Zoroastro, Fo-hi, Tubalcaín, Quetzalcoátl, Dionísio, Orfeu, etc. Os escritos gregos atribuídos a Hermes Trimegisto constituem um cânon mais unificado que o das escrituras judaicas ou cristãs. São uma série de escritos doutrinais, inspirados em vários autores  com variações em torno de alguns grandes temas como: a bondade absoluta de Deus, que é de uma só vez Uno e Todo; a auto-revelação da Mente Divina no  Cosmos;  o Universo como uma emanação de seres dentro de uma ordem hierárquica; a constituição única do ser humano como microcosmo; o caminho até a regeneração e conhecimento direto de Deus. O  Corpus Hermeticum expunha novamente esses temas em benefício dos cosmopolitas de língua grega que viviam sob o Império Romano.
   
Ainda que Thoth tivesse seu aspecto popular, o Corpus Hermeticum possui seu aspecto apócrifo em que Hermes converte-se em senhor das ciências ocultas, o revelador da medicina astrológica e da magia simpática por meio da qual se atraem as influências do céu e se fixam os talismãs. Há um exemplo em Asclepius, quando descreve como os egípcios fundiam deuses em estátuas. Por último, mas não menos importante, a filosofia natural de Hermes e seu conhecimento do oculto se uniram para fazer dele o pai da alquimia , a arte egípcia da transmutação.
    
A imagem mítica central do hermetismo parece ser o primeiro tratado do  Corpus Hermeticum, "Poimandrés, o Pastor dos Homens". É a descrição da ascensão da alma depois da morte e da rendição de suas energias às sucessivas esferas dos sete planetas. Quando esta renuncia a todas elas, pode então atravessar a Oitava Esfera (As Estrelas Fixas) e unir-se  à companhia dos Benditos. Esta é uma versão cósmica da  ordália descrita no Livro dos Mortos dos egípcios (ou a "Saída à Luz do Dia"), onde uma alma deve atravessar os diversos corredores do Outro Mundo e ser pesada contra uma pluma em uma balança antes de poder ingressar no Paraíso de Osiris.

O aspecto filosófico do Hermetismo baseia-se na doutrina das correspondências. Na ascensão hermética, cada planeta corresponde a um determinado poder: Mercúrio à inteligência, Vênus ao desejo, Marte à ira, etc.  Assim, o ser humano é um microcosmo que contém, em pequena escala, as mesmas energias que o macrocosmo. Se imaginarmos a Terra como o centro do Universo, a alma adquiriu essas energias em sua viajem descendente, (ou interior) desde as regiões celestiais através das esferas planetárias e surge à vida terrena no ventre materno, plena de potencialidades e tendências que são delineadas em seu horóscopo natal. Durante a vida, a alma trabalha com essas potencialidades com  a esperança de refiná-las para que emerjam como virtudes. Se logra seu intento, ao abandonar o corpo na morte, é luz e, desembaraçada, está pronta para ascender a seu lugar de origem. Se, pelo contrário, as energias se condensaram  em vícios, então a viajem ascendente se tornará difícil e a alma pode permanecer presa na atmosfera da Terra, um tormento para ela mesma e uma retardatária para suas companheiras.

 Esta é a Doutrina Hermética, como se entende geralmente.   Entretanto, segundo as escolas   modernas da alquimia que liquidaram com a estrita confidencialidade  do passado, não resta nada da maioria das almas das pessoas que tenham sido filtradas pelas esferas planetárias, pouco depois da morte. A maioria delas seria extinta como personalidade, pouco depois da morte e talvez sejam recicladas como pessoas totalmente diferentes. Para colocar a questão de forma sensível, não existe garantia alguma acerca da imortalidade pessoal, apesar do que possam dizer em contrário as doutrinas consoladoras.


A ambição do adepto é sobreviver a esta dissolução geral e, se voltar a encarnar, fazê-lo apenas por uma eleição deliberada e não por uma amarração a um  processo natural, como o resto das pessoas. Para atravessar além dos limites dos cosmos (simbolizado pela esfera estelar) e entrar conscientemente em outra forma de vida, o adepto deve ter forjado durante sua vida  um "corpo radiante" como veículo de sua individualidade. Se diz que este processo é puramente científico e nada tem a ver com religião. As técnicas requeridas  são ensinadas em escolas muito restritas e de várias formas apropriadas para as diferentes culturas do Ocidente e do Oriente, Norte e Sul.

  
Conhecer esta corrente hiper-esotérica facilita a compreensão da alquimia. Na alquimia operativa ou física, o corpo radiante é forjado em paralelo com eventos químicos e sua consecução marca o surgimento da Pedra Filosofal.  Há evidentemente objetivos intermediários que se consideram dignos de serem alcançados: o assunto é extremamente complexo. Alternativamente, a alquimia pode ser totalmente interna, consistindo em meditações, exercícios de respiração, magia sexual, etc.

Pelo fato do mundo físico estar imerso em influências celestiais, é um lugar de beleza e maravilha. A Natureza é um livro onde se pode ler a sabedoria da mente Divina. Recordemos que a Thoth se relacionava todo o conhecimento útil: as artes e ciências que melhoram a qualidade de vida, como a música, as matemáticas e a escrita. Obviamente, a alquimia mesmo se iniciou com a tecnologia dos metais. Quando a mera existência animal se eleva devido às artes e ciências e as pessoas se movem conscientes da mente Divina através das obras da Natureza é que as dádivas de Thoth estão gerando frutos.

Depois do Império Romano as doutrinas do Corpus Hermeticum expandiram-se em direção ao Hermetismo, termo mais amplo que abrange muito da tradição esotérica do Ocidente. As três religiões abraâmicas encontraram um espaço para ele. Entrou no Islã graças aos saberes de Harran (na Turquia, próximo à fronteira com a Síria), centro da antiga indústria de cobre e de uma seita que mesclou a  adoração da estrelas com o neopitagorismo, neoplatonismo e a alquimia prática. Seus patronos, Hermes e Agathodaimon, transformaram-se nos profetas muçulmanos Idris(=Enoque) e Seth. Por mais de um século, Harran também foi a sede de uma escola de tradutores que se especializou na matemática e astronomia grega, transmitindo assim muito da tradição  pitagórica ao mundo muçulmano. No Séc. X, a Irmandade da Pureza de Basra (Iraque), compilou uma enciclopédia  de todas as artes e ciências, incluindo a teurgia e a magia, a qual foi estudada pelos drusos, pela seita dos asesinos e pela maioria das escolas sufis. Desta forma o Hermetismo  passou ao verdadeiro coração do esoterismo islâmico.

No judaísmo, a influência  hermética  surgiu na Cabala. O breve e fundamental texto cabalístico  Sepher Yetsirah (o "Livro da Formacão", Séc.  III d. C.) expõe uma cosmologia baseada na doutrina das correspondências, especialmente a dos planetas setenários, dias da semana, aberturas da cabeça, etc, e do dodecanato do zodíaco, as direções do espaço, dos meses, órgãos do corpo, etc. Descreve um cosmos não separado entre o  bem e o mal, mas suspenso na polaridade por energias positivas e negativas. O método de salvação se dá por meio da tomada de consciência do Uno como microcosmos, sentando o "Rei em seu Trono"  (a Presença Divina ) no centro da vida. De novo, temos uma doutrina que afirma a Natureza e Corpo e está dedicada à realização do macrocosmo no microcosmo. A ideia esotérica de Israel é também uma ideia hermética: a de que os judeus estão chamados a dar testemunho da ordem divina na Terra. Em  igual ao Hermetismo, a Terra, incluindo o corpo humano, está plena de influências celestes, motivo pelo qual a forma de vida judaica está projetada para assegurar que toda ação congregue um significado espiritual.
    
Em Bizâncio, o Corpus Hermeticum foi preservado pela escola de Pselos sob a bandeira do neoplatonismo e assim passou à Itália ganhando um novo ímpeto. A tradução latina de  Marsilio Ficino foi apresentada a Cosme de Medici en 1463 e no século e meio seguinte marcou o mundo intelectual. A ideia de que Deus havia falado não apenas aos judeus mas também aos pagãos conduziu, em círculos seletos, à renovação de um sentido religioso universal, como o que existiu pela última vez sob o Império Romano. O Hermetismo serviu   como campo neutro tanto a protestantes quanto a católicos. O Hermetismo, ou a busca da alquimia e das outras ciências ocultas,  às quais ele provê o suporte intelectual, floresceu como nunca o fez antes.
Por ser essencialmente um ensino cosmológico e prático, em lugar de uma teologia, o Hermetismo pode coexistir com quaisquer das religiões abraâmicas. Seu antecedente histórico, contrário ao das anteriores, está livre de intolerância e derramamento de sangue. A forma de vida hermética, que é ciência, contemplação e auto refinamento não entra em conflito com a fé ou as práticas religiosas.  Por estas razões, o terreno hermético é um lugar de confluência ideal para os cristãos, judeus, muçulmanos e para aqueles de outras religiões  ou de nenhuma. Oferece uma análise da condição humana dentro do cosmos e uma variedade de métodos para fazer o melhor uso desta condição.

A Maçonaria tem sido uma criação bastante duradoura da Tradição Hermética no Ocidente, levando-a através da era do ceticismo e do cientificismo (positivismo de Comte). O simbolismo maçônico é totalmente hermético, ainda que não seja totalmente egípcio. A imagem do Grande Arquiteto do Universo formando aos homens como pedras em estado bruto a serem lapidadas até serem blocos perfeitos do Templo Cósmico remonta-se ao Demiurgos  de Platão (não confundí-lo com o enganoso Demiurgo do Gnosticismo). As etapas de iniciação estão, como os passos da ascensão hermética, plenas de simbolismo planetário. A regra que evita toda discussão religiosa na Loja elimina um dos principais obstáculos para a irmanação dos homens: a discórdia sectária. 

Na atualidade, muitas religiões ocupam-se de temas verdadeiramente não-herméticos. De certa forma,  isto tem valido para a Tradição Hermética que agora não tem mais porque ficar atrelada a outras instituições e pode erigir a própria igreja, desenvolver o seu lado mais esotérico. Um repasse na história confirma o diagnóstico. O Hermetismo do Renascimento esperava restaurar a paz ao mundo cristão e a sensatez da humanidade em guerra, o movimento atual vai além do apoio ecumênico, pretende dar identidade à sua Igreja, filosófica não dogmática. Como alquimistas que acreditam que matéria pode se transformar em ouro, dedicam-se à transformação pessoal e na realização do potencial latente de cada um. Em templos herméticos as ciências ocultas florescem nas suas formas mais superficiais nos sistemas de adivinhação (Tarot, Runas, I Ching), a Astrologia, a Ciência das Plantas (a medicina das ervas) e uso dos Cristais.  Assim como Paracelso percorreu a Europa conversando com lenhadores e mulheres sábias, os hermetistas buscam e valorizam a sabedoria dos indígenas. 

Ir Edson Monteiro

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